A trajetória do Três começa com uma questão: por que se deveria cultivar um repertório de uma tradição aparentemente distante da cultura brasileira, como é o caso da tradição celta? Ao contrário do que pode parecer, a resposta não está relacionada a nenhuma espécie de democracia cultural nem a uma suposta amostragem da diversidade de repertório existente no planeta. Também não se pretende responder a essa questão com alguma maneira purista e intelectualista de absorção de uma cultura, de certo modo, estrangeira e nem mesmo com a reivindicação de alguma hereditariedade subterrânea dos nossos antepassados galegos lusitanos. A resposta reside sim na empolgação e no vigor corporalmente sensíveis, presentes ao se escutar, tocar ou dançar boa parte do repertório a que comumente denominamos de música celta. Se existe algo de subterrâneo nisso, é sim essa ebriedade causada por um tema de dança ou por uma bela, aérea e lamentosa canção. E aqui se encontra o real motivo pela qual Zé Mazzei (contrabaixo), Fernanda Kostchak (violino) e João Paulo Nascimento (violão) se juntaram, no final de 2009, para formar o Três. Essa junção chegou colocando desafios. Como manter, no atual contexto de eletrificação, o vigor da dança e o interesse da audição a partir de três instrumentos acústicos: o violino, o violão e o contra-baixo? Para esta síntese, além dos celtas, outra herança subterrânea contribuiu: o repertório pessoal dos integrantes. E foi através desta abertura que o Três expandiu suas possibilidades de repertório e de modos de realização musical.
O repertório de interpretação passou a englobar canções de diversos outros universos musicais, todos eles amarrados pela presença de algum tipo de elemento rural manifesto através dos instrumentos de cordas. Acrescentou-se as interpretações, um repertório autoral, composto de canções, temas instrumentais e improvisos livres. Assim, o Três produz uma música de difícil categorização quando pensamos nos diferentes universos culturais visitados, mas tendo o elemento folk , pensado em um sentido mais amplo do que somente a música rural britânica e americana, como um condutor comum entre esses universos. O modo de se tocar deste trio merece uma observação em especial. Na tentativa de se afastar da roupagem pop e new age com frequência empregadas, atualmente, às canções celtas, o trio intenciona ressaltar uma certa rudeza e rusticidade, semelhante aquela sentida quando presenciamos um carro-de-boi rangendo-se vagarosamente enquanto passa por uma estrada de terra, oferecendo uma imagem contraditória e lembrando-nos deste não tão distante mundo rural. Assim, algum vigor se mantém em uma sonoridade que evoca caipiras das mais diferentes etnias e nacionalidades em uma espécie de culto anônimo às forças da dança e de uma ébria emoção.
O repertório de interpretação passou a englobar canções de diversos outros universos musicais, todos eles amarrados pela presença de algum tipo de elemento rural manifesto através dos instrumentos de cordas. Acrescentou-se as interpretações, um repertório autoral, composto de canções, temas instrumentais e improvisos livres. Assim, o Três produz uma música de difícil categorização quando pensamos nos diferentes universos culturais visitados, mas tendo o elemento folk , pensado em um sentido mais amplo do que somente a música rural britânica e americana, como um condutor comum entre esses universos. O modo de se tocar deste trio merece uma observação em especial. Na tentativa de se afastar da roupagem pop e new age com frequência empregadas, atualmente, às canções celtas, o trio intenciona ressaltar uma certa rudeza e rusticidade, semelhante aquela sentida quando presenciamos um carro-de-boi rangendo-se vagarosamente enquanto passa por uma estrada de terra, oferecendo uma imagem contraditória e lembrando-nos deste não tão distante mundo rural. Assim, algum vigor se mantém em uma sonoridade que evoca caipiras das mais diferentes etnias e nacionalidades em uma espécie de culto anônimo às forças da dança e de uma ébria emoção.



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